sábado, 10 de maio de 2008

O Desprezo, de Godard

Eu adoro filmes metalingüísticos. Adoro cinema falando de cinema, acho fantástico. Então, dá pra incluir na minha lista de melhores “8 e ½”, de Fellini, “A Rosa Púrpura do Cairo”, de Woody Allen. Mas se tratando da nouvelle vague, o movimento do cinema autoral da França nos anos 1960, então, a coisa só fica melhor.

“O Desprezo” (1963), de Godard, é um daqueles filmes que te deixam em meio a uma confusão quando terminam. Exatamente como “Acossado” (1959), do mesmo diretor: personagens que não são bons nem ruins, metáforas. Falando nelas, “O Desprezo” (em seu título original, “Le Mèpris”) é caprichoso na montagem e praticamente filho de Eisenstein nesse sentido: a sobreposição das cenas nem sempre é feita ao acaso: existe uma relação de continuidade que ajuda a construir o sentido do que se pretende dizer.

Nisso, é claro, não se pode desconsiderar o fato de que a nouvelle vague francesa nasceu de jovens críticos de cinema, que haviam assistido aos clássicos e que se dedicavam, através do Cahiers du Cinema, a propor uma destruição do cinema francês tradicional que imperava na época. Queriam construir um cinema de autor – e deu certo. O público jovem gostou e os distribuidores decidiram investir na nouvelle vague. Essa proeza, pelo que me consta, ninguém tinha conseguido antes – e ninguém fez depois.

O filme fala dos bastidores da feitura de um filme e é bastante irônico com a indústria do cinema e com o papel dos produtores. Eles filmam “A Odisséia”, e Fritz Lang ( o próprio, como ele mesmo) lembra que a batalha de Ulisses, herói da história, é contra os deuses. O produtor do filme, por sua vez, diz que gosta dos deuses por saber como eles se sentem. Outras muitas referências estão no filme, como a frase de Louis Lumière que diz que o cinema é uma invenção sem futuro (“il cinema è un´invenzione senza avenire”). Godard também abandona os letreiros e ele mesmo narra os créditos do filme. Em meio a tudo isto, há um casal em crise. Brigitte Bardot e Michel Piccoli. Mas isso, definitivamente, não é o mais importante.


Com “O Desprezo”, Godard mostra como é possível fazer um filme de fato muito bom sem dar tanta atenção aos aspectos lineares da narração. Ele mesmo despreza o cinema antigo para construir um novo – e como esse novo é bom!



2 comentários:

André Setaro disse...

Excelente capacidade de perceber as nuances "subtextuais" dos três filmes comentados: "O desprezo", de Jean-Luc Godard, "Aurora", de Murnau, e "O passageiro: Profissão Repórter", de Michelangelo Antonioni. Creio que você, com mais alguma quilometragem rodada, pode vir a se tornar numa boa analista de filmes. Gostei muito de seu blog. Vou aparecer com mais assiduidade.

Anônimo disse...

Ganhando até comentário de Setaro, heim? Essa questão da autoria, de fato, é muito importante.Como não assitir o filme...