sábado, 23 de junho de 2012
"O Gosto do Cloro" e do amor
"Sometimes" - como diz um amigo meu- , a vida tem dessas coisas. Sem nenhuma intimidade com o universo das piscinas e da natação, o protagonista se vê impelido a nadar por conta de uma dor nas costas. Vai. E lá fica a contragosto até encontrar uma garota. Mas não é assim mesmo que o mundo parece depois, cheio de graça? É aos poucos que vai acontecendo. A piscina enorme que parece absolutamente infinita diante da pequenez do corpo dele, tão frágil e inseguro. Ela, por sua vez, boa nadadora, sabe como dar braçadas precisas.
É enquanto conversam sobre o nado que vão chegando perto um do outro: ela ensinando, ele aprendendo. E vão ficando. O teto alto da piscina coberta, os anônimos que também nadam nela, tudo é solidão. É preciso se enfrentar para crescer - é o que a água azul da piscina diz a ele. Ela é quem o leva, e ele vai, sem escolha diante do amor.
Não é cinema, é HQ, mas tem tudo a ver. Bastien Vivès (o autor) sabe transpor para seus quadrinhos os silêncios das horas, o tempo demorando de passar, a sensação de ficar sem ar. E é sufocado e um pouco sem entender que o protagonista enfim cresce. Mas não é assim mesmo na vida real?
"O Gosto do Cloro"
Bastien Vivès
editora Barba Negra
144 páginas
R$ 49,90
domingo, 9 de janeiro de 2011
"Poema em quadrinhos" e Orfeu e Eurídice
Embora Buzzati tenha morrido em 1972 com a inquietação de que queria mesmo era ser artista plástico, também como poeta ele é genial. O livro apresenta versos, que, junto com as imagens, constroem significações como “Cada um traz consigo o seu próprio mundo/ É aquilo que lhes basta, imagino”. As mulheres são lânguidas e poderosas. Desfilam nuas pelo caminho de Orfi, e a ele são oferecidas ao longo de sua jornada. Têm no olhar o mesmo jeito desafiador de algumas mulheres dos quadrinhos do também italiano Milo Manara (de “Kama Sutra” e da série “Clic”).
A história de Orfeu e Eurídice certamente não é novidade para a maioria das pessoas, principalmente por já ter servido de base para tantas coisas, da peça de Vinícius de Moraes, “Orfeu da Conceição”, ao filme “Orfeu” de Cacá Diegues. Talvez seja exatamente isso que confira o grande mérito ao livro: “Poema em quadrinhos” assume a difícil tarefa de reinventar com maestria a história de Orfeu e Eurídice, e ainda a ilustra com imagens incríveis, que por vezes se expressam em ruas escuras e vazias, e num desenho sombrio para revelar o grande - e destemido - mergulho do personagem.
“Poema em quadrinhos” / Dino Buzzati / 220 páginas / Cosac Naïfy / R$ 42
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Julie, Julia e uma receita de mim
E aí que encontro “Julie & Julia” (2009), de Nora Ephron, para assistir. E fico achando incrível a forma através da qual pode emanar arte da cozinha. O filme, embora não tenha nenhuma pretensão nem arroubo de ser alguma novidade em termos de linguagem cinematográfica – e sinceramente, poucos conseguem mesmo hoje em dia -, é muito fofo.
Amy Adams e Meryl Streep, respectivamente Julie e Julia, estão insatisfeitas com suas vidas, embora a primeira viva nos dias atuais enquanto a segunda, na década de 1940. O filme é lindamente colorido: a fotografia bonita das cozinhas até lembra as dos filmes “O tempero da vida” e “Sem reservas”, ambos comentados por aqui. E então Julie vai preparando as 524 receitas do livro de Julia, enquanto um ano inteiro se passa. As histórias correm em paralelo e não se encontram no final, e talvez a graça seja justamente essa: transcender tudo, até mesmo os convencionais finais felizes que a gente sempre espera, para tentar o novo e dar um basta na monotonia da vida.
quinta-feira, 4 de março de 2010
A rosa púrpura do Cairo e outras histórias
Cecilia é uma garçonete que vive no limite da infelicidade. A vida só fica mais leve naqueles instantes em que senta na sala de cinema e sonha com o galã do filme. Como nem tudo é dia de chuva, a sorte lhe sorri. O galã pula a tela e nós, atônitos, acreditamos, mesmo sem querer acreditar. Ele pulou. E agora vão percorrer parques de diversão, lanchonetes, restaurantes, para espalhar o amor pela cidade inteira.
Vem o ator que interpreta o personagem oferecer-lhe Hollywood. Vem o marido pedir-lhe perdão. Cecilia hesita em sair do sonho. Pode viver outro novinho em folha. Pode voltar pro pesadelo.
Woody Allen já disse que esse era seu filme preferido. Se eu tivesse feito, seria o meu também. “A rosa púrpura do Cairo” é destino, muito mais que escolha.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Lisbela.
Com sotaques graciosos e cenários bem coloridos, típicos dos filmes de Guel Arraes,”Lisbela e o prisioneiro” tem tudo de bom. A trilha sonora é perfeita, e vai de Elza Soares cantando “Espumas ao vento” até Los Hermanos na indefectível canção “Lisbela” (“Eu quero a sina de um artista de cinema/ eu quero a cena onde eu possa brilhar / um brilho intenso, um desejo, eu quero um beijo/ um beijo imenso onde eu possa me afogar”). A fotografia. O elenco. Análises à parte, o que o filme tem de melhor mesmo é esperança.
Lisbela aceita mudar todos os planos – casamento marcado, noivo direitinho – pela novidade: Leléu, um sem-pouso. E por que não? Se não é na vida que pode tudo, onde mais vai poder? Então Guel Arraes faz do jeitinho que todo mundo espera do outro lado da tela, sem ter nada de errado nisso. Deixa o espectador satisfeito. Todo mundo vai pra casa feliz e esperançoso de que, um dia, como fez Woody Allen em “A rosa púrpura do Cairo”, a fantasia pule da tela e mude a realidade.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
“Melinda e Melinda” e o jeito de ver
Sendo assim, Melinda está presente nas duas histórias, assim como os mesmos cenários e personagens. Tudo dividido desde o início do filme que, na verdade, são três: a conversa agradável dos escritores sobre como cada um construiria sua história, a tragédia da Melinda problemática e a comédia da Melinda encantadoramente desleixada.
É claro que não falta aquele clima que só Woody Allen sabe criar, com contornos cômicos que fazem lembrar “Todos dizem eu te amo” (1996) e trágicos que remetem a “Interiores” (1978). Em “Melinda e Melinda”, estão presentes também as agradáveis e habituais trilhas sonoras, além de atores como Will Ferrel e Chloë Sevigny.
A graça mesmo, além da maestria de Allen na metalinguagem, está na capacidade de transformação da mesma história em comédia ou drama, dependendo apenas da escolha de quem vê. E a vida não é assim mesmo, afinal?

sexta-feira, 16 de outubro de 2009
uma alegria
Confiram:
http://www.dimas.ba.gov.br/critica2009/lista_de_premiados.htm
se clicar nos links, dá pra ler as críticas premiadas.
adorei!
terça-feira, 4 de agosto de 2009
“Meu tio” e a grande alegria das coisas simples
O tio do menino vive numa casa bagunçada, não tem mulher e nem trabalho. Na casa do menino, o assoalho está sempre limpo, e vez por outra, seus pais recebem os amigos para mostrar a mais nova descoberta da tecnologia, que sempre chega por lá. E é quando Hulot vai para a casa da irmã que o caos invade a ordem, mas traz consigo a alegria de viver que só os leves têm. Então “Meu tio” vale pela lição, pela crítica à automação do fim dos anos 50 (o filme é de 1958, mais precisamente) e pelos 110 minutos que passam rápido como só os melhores filmes conseguem fazer. Bom demais.
Não à toa, o filme, que parece simples e na verdade, é mesmo, arrebatou Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e o prêmio especial do júri em Cannes. Apesar disso, o mérito está na fotografia impecável e na história incrível que se constrói do que existe na vida de todo mundo: presenças encantadas. Verossimilhanças à parte, Tati recria o mundo com maestria.
terça-feira, 21 de julho de 2009
A excêntrica família de Antonia e o pouco de cada um de nós
Mais do que o que se pode descrever, o filme traz o retrato da vida de alguém – coisa que parece simples, mas não é. “A excêntrica família de Antonia” mostra sutilezas da vida através de personagens intrigantes: a neta com inteligência acima do comum, a Madona que uiva todas as noites de lua cheia, o cético Dedo Torto, que vive rodeado de livros de Nietzsche e Schopenhauer. Todos eles e mais uma infinidade de outros igualmente interessantes vivem ao redor da agregadora matriarca Antonia, que a todos conduz com determinação e tranqüilidade.
O grande desafio do filme, que ganhou Oscar de melhor filme estrangeiro em 1996, é tornar o expectador parte da grande família de Antonia, fazendo parte de seus dramas e celebrando as alegrias com os personagens. Poucos filmes o fazem tão bem. Na literatura, é possível encontrar uma sósia de Antonia na personagem Penélope Keeling, de “Os catadores de conchas”, de Rosamunde Pilcher. É tão encantadora quanto, então vale a pena.
Apesar de contar histórias por vezes dramáticas, o filme passa longe do sentimentalismo que enjoa. Para Antonia e sua excêntrica família – consangüínea ou não -, o que importa mesmo é deixar a vida passar aos poucos, bem devagarinho, bem curtida. As dores, se vierem, se vão. A alegria é o que se guarda até o final. Tudo muito natural.
domingo, 15 de março de 2009
“Sim, Senhor” e o poder da comédia despretensiosa
Dizer sim indiscriminadamente é o desafio ao qual se propõe o amargurado Carl Allen, depois de recusar todas as oportunidades que surgem em seu caminho. Ele podia simplesmente ter lido “O Segredo” e ter mudado de vida – como fez Oprah Winfrey; podia ter assistido a “Guerra dos Mundos” e ter pensado que o apocalipse estava próximo. Preferiu ir a contragosto à uma reunião e fazer o que todo mundo termina fazendo em meio mundo de lugar por aí: esperar por uma solução simples (pelo menos à primeira vista, obviamente): dizer sim.
O filme não tem nenhum exagero de atuação: nada, nada, nada demais. A graça está na esperança que eu tenho em Jim Carrey (que só me conquistou depois de “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”) e na possibilidade que os filmes mais abobados têm de fazer pensar em alguma coisa. Mesmo que essa coisa seja bastante óbvia como dizer sim ao que a vida traz.
domingo, 18 de janeiro de 2009
"Titãs - a vida até parece uma festa"
Mais do que um trabalho de mostrar a trajetória da banda, eu acho, está a importância de construir uma memória de um tempo bom. Nessa hora, importa menos que seja uma banda famosa no país e mais que todo mundo tem uma boa história pra contar. Claro que nem sempre se tem palcos grandes, iluminação e cenário ideais. Mas sempre dá pra viver uma boa história. E se não for boa na hora – o filme também dá essa receita -, pode esperar: depois (olhada assim, em retrospectiva), há de ficar.
A edição do filme fica ainda melhor porque combina as imagens de arquivo – algumas inclusive com o charme de serem tremidas, com cara mesmo de quem está em casa e pega a câmera num impulso – com uma trilha sonora es-pe-ta-cu-lar. Pra quem é fã, certamente vai ficar faltando alguma música (a faixa três daquele álbum ou a cinco daquele), mas a seleção é das boas: tem “Sonífera Ilha”, “Flores”, “Bichos escrotos”, “Epitáfio” e por aí vai. Só pra deixar o gostinho.
Vários rostos conhecidos, como não podiam faltar: tem Jorge Mautner, Paula Toller, Herbert Vianna, Roberto Carlos, Chacrinha, Hebe, Raul Gil e até Jânio Quadros. Dá até pra aprender a cozinhar com os Titãs, embora a receita não seja assim, tão confiável (quem assistiu, sabe do que estou falando). Mas sempre tem quem se aventure.
Pra quem estiver em Salvador, o filme pré-estréia na terça-feira (20), às 20h45, na SALA DE ARTE – CINEMA DA UFBA. O filme faz parte da 1ª Mostra Cine Brasil de Salvador, que acontece até o próximo dia 22. A sessão ainda tem bate-papo com a equipe de produção (Branco e Oscar inclusive).
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Um beijo roubado (e esperado)
“Um beijo roubado” é um filme doce, sutil, e que se constrói de esperas (a temática que Kar-Wai nunca deixa escapar). Jeremy (Jude Law) e Elizabeth (Norah Jones) se encontram numa madrugada e vão se conhecendo através de conversas sobre chaves que as pessoas deixam em bares e histórias de despedidas. E uma curiosidade de Elizabeth de experimentar a torta que sempre sobra no balcão, a blueberry pie.
Mas o tempo não pára dentro do filme: viagens, cartas sem endereço de remetente, novas pessoas, novos cenários, tudo acontece. Só que há ainda aquela vontade de jogar o passado distante ao largo para que seja possível olhar para trás de novo e resgatar o que se deixou há pouco tempo. E vivê-lo. Talvez aí esteja a grande sacada do filme (mas é que eu ando suspeita para falar disso ultimamente): fechar todas as portas do passado para terminar de abrir a que se deixou entreaberta.
A trilha é incrível, as cores do filme são espetaculares e há uma graça extra pelo filme se passar em grande parte nas madrugadas. É quando se encontram todos os que andam vagando por aí: marginais, problemáticos, gente sem razão ou que simplesmente precisa se encontrar. É um caminho torto de encontro, mas ainda assim um encontro. Então vale.
Tem ainda Natalie Portman e Rachel Weisz no meio da história toda, mas sinceramente eu não tive olhos para mais ninguém além de Jeremy, Elizabeth e da história toda que se constrói quando menos se espera, e da espera. É lindo.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Monika e o desejo: a liberdade, por Bergman
Ah, os verões! Quem nunca tiver se rendido a um, que atire a primeira pedra. É essa a questão fundamental em “Monika e o desejo” (1953), de Ingmar Bergman: como podemos nos render ao que sabemos passageiro, fugaz, finito? A resposta, ou seja, como, talvez nem esteja no filme, mas é poder se render que está.
Para Godard, “Monika e o desejo” era o “filme mais original do mais original dos cineastas”. De fato, o filme se parece pouco com qualquer coisa que eu tenha assistido antes: poucas vezes vi alguém fazer cinema assim, tão livre. E não se trata de recursos de imagem, mas de história. Difícil mesmo é subverter os roteiros que guardamos na memória, sair do lugar-comum ao qual estamos acostumados. E é justamente isso que Bergman faz com maestria em “Monika e o desejo”.
A história começa como tantas outras: um rapaz e uma moça (a nossa Monika) se apaixonam e juntos, têm vontades de fugir e largar tudo. Largam. Vão viver distantes da sociedade, longe de seus trabalhos e famílias, como se só se pudesse ser feliz de verdade abdicando a tudo. É um tempo feliz, aquele, mas que acaba com o fim do verão. É quando o rapaz acorda e sente que “o dia está diferente” – como ele mesmo considera.
Mas “Monika e o desejo” é um filme sobre liberdade e outras questões que vão levar ao maio de 1968: a juventude chegando, os anseios de gente que até então não existia aos olhos do mundo e passa a existir. E tem desejos. Monika, a protagonista, ama somente os verões, os ventos que circulam livres, e então percebe que ajudou a erigir sua própria prisão. E desmonta tudo. Se o rapaz do filme pudesse ter-lhe dedicado um poema, seria o Epigrama nº 8, de Cecília Meireles:
“Encostei-me a ti, sabendo bem que
Eras somente onda.
Sabendo que eras nuvem, depus a
Minha vida em ti.
Como sabia bem tudo isso, e dei-me
Ao teu destino frágil,
Fiquei sem poder chorar quando caí”.
O mais embrutecido dos expectadores há de ficar atônito com “Monika e o desejo”. Pronto, não digo mais nada.
domingo, 30 de novembro de 2008
“Juno” e a fórmula de sucesso do filme alternativo
Para mim também é encantador ver um filme com Velvet Underground, Buddy Holly, Cat Power e Belle and Sebastian na trilha sonora, como acontece em “Juno”, mas isso não resolve o resto todo. Na trilha, tem também aquelas canções em que a banda vai numa direção e as vozes vão em outra – o que garante algum prestígio junto a uma determinada classe de ouvintes.
O que fico pensando é se as pessoas crêem mesmo que “Juno”, de Jason Reitman, é um filme despretensioso só porque não acontece nada nele. Aí tem também festejar tanto a roteirista Diablo Cody, que ganhou o Oscar por ser ex-stripper e ex-operadora de telesexo (que era só o que se comentava sobre ela na época da entrega do prêmio). Mas a Juno, interpretada por Ellen Page, é mesmo bonitinha.
A história? Juno engravida de seu melhor amigo e decide entregar seu filho à adoção. A facilidade da explicação me faz lembrar de um professor que diz que é para ter medo quando a gente consegue falar sobre o que o filme trata assim, tão rápido. Não é que o filme seja ruim, admito: é só que coloca a fórmula do filme alternativo em prática sem encantar, fica faltando aquele ar de maravilha quando termina. Já “Pequena Miss Sunshine”, eu acho, não deixa faltar nada: é cheio de delicadezas e se realiza bem dentro do que propõe.
“Juno” se impõe mesmo pela trilha sonora, mas o tão-festejado roteiro deixa a desejar, já que no filme não acontece nada além do previsto: é uma linha reta. E vamos combinar: a graça do cinema (e da vida) é a surpresa.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
A Bela, a Fera e o cinema do possível
Mesmo para os fãs do colorido e das músicas de “A Bela e a Fera”, da Disney, não fica faltando cor nem história nem nada no de Cocteau. Em preto-e-branco, eu diria, a história tão conhecida fica cheia de contornos poéticos, com uma fera interpretada por Jean Marais, já íntimo de quem gosta do cinema que é bom demais para ser verdade por “Pele de Asno” (1970), de Jacques Demy.
A delicadeza que a atriz Josette Day imprime à Bela é ótima, mas Jean Marais está espetacular. Consegue fazer com que a gente – exatamente como a Bela – vá mudando de sentimento em relação à Fera. O que parece tão assustador é, na verdade, um bicho ferido com ânsias de se defender. Mas então a história segue (nenhuma pára) só para provar que a Bela de carne e osso de Cocteau acreditava naquela frase dele mesmo: “Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez”. De repente, a história não precisava ser desenho animado para existir: podia ser com gente parecendo gente também. E como Cocteau é convincente!
Os figurinos são maravilhosos (assim mesmo) e os efeitos especiais são bonitos, ainda que não cheios de recursos como é possível hoje em dia. Talvez a graça esteja exatamente aí: Cocteau mostra que é possível aproximar o conto de fadas da vida real. Só vendo para crer.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Romance: o meu, o seu e o de Guel Arraes
Gosto da mistura entre teatro e cinema. Gosto do figurino. Gosto da metalinguagem que me lembrou um filme que amo: “A mulher do tenente francês” (1981), de Karel Reisz. Em “Romance”, tem cinema dentro do filme. Ainda mais: tem também algumas peças de teatro e uma história de amor como poucas: a de Tristão e Isolda, a que deu origem ao amor romântico (aqui vale ler “We”, de Robert Johnson, que fala da visão da psicologia da história deles).
“Romance” foge daquela reclamação usual no cinema nacional de que parece novela. Não parece. Parece um filme, mas ainda melhor: fiquei desejando mais quando chegou ao final. Bons cortes de imagem e a fotografia é bem bonita. Os atores estão bem. E o filme tem aquela leveza difícil de se conseguir, principalmente quando se propõe a falar de uma história tão conhecida, daquelas que mesmo quem nunca ouviu falar em Tristão e Isolda conhece, por conhecer o amor. Mas não é cheia de clichês. É ousada, e a graça está exatamente aí.
Depois li no blog do filme que Guel orientou Wagner Moura (o Tristão) a ter algumas referências. No meio delas, tem “Jules et Jim” (um dos meus favoritos do mundo inteiro) e, curiosa mas não absurdamente, “Todas as mulheres do mundo”. Ficou lindo. E tem no elenco Letícia Sabatella, Vladimir Brichta, Marco Nanini, Andréa Beltrão, Zé Wilker...eu adorei.
E é de matar quando Caetano começa a cantar “Nosso estranho amor”. Cinema é reconhecimento, não é? Então tá. Não costumo falar de filme assim, tão recente que ainda esteja no cinema, mas esse mereceu. Vão lá correndo descobrir por que.
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
"Sem Reservas" e o doce na medida certa
De “Sem Reservas”, filme de 2007 de Scott Hicks (o mesmo de “Shine”), não esperei muito e confesso: o filme superou minhas expectativas. Kate, interpretada por Catherine Zeta-Jones, é chef de um bom restaurante e vive sozinha até ter de cuidar de sua sobrinha Zoe, que é a fofíssima Abigail Breslin, a Olive de “Pequena Miss Sunshine”. Quem aparece na história também é o subchef Nick (Aaron Eckhart). O que é interessante é que o filme começa mesmo depois da tragédia: antes, é mera apresentação de personagens. E o que se espera de cinema é história, desenrolar, conflitos, soluções. Nisso, “Sem Reservas” não deixa faltar nada.
O que surpreende mesmo é a capacidade de ser um filme leve, bonito até. A fotografia é bem feita, os personagens são cativantes e vamos combinar: nem tudo nesta vida precisa ser Godard. A trilha é do Philip Glass, o mesmo que assinou a de “As Horas”, de 2002. Com todos os ingredientes na medida certa (embora sem nenhum exagero de perfeição, já que não tem essa pretensão), “Sem Reservas” é doce sem passar do ponto.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Jean Vigo e o amor
O filme começa numa viagem – dessas de navio, rumo ao desconhecido, como é todo amor – na qual embarcam os recém-casados Jean e Juliette. Os diálogos são lindos:
- Você não sabe que pode ver a pessoa que ama na água? Quando eu era pequena, via essas coisas. No ano passado, vi você e o reconheci na primeira vez que foi à minha casa.
Entre uma e outra noite em Paris, o amor vira dúvida, e Jean e Juliette decidem se distanciar: ela, porque prefere fugir do navio a ter que aceitá-lo; ele, porque seu orgulho o faz recusar-se a procurar por ela. Mas os caminhos sem amor se mostram sempre mais tortuosos do que se espera.
Além da graça típica de um amor vivido em preto-e-branco, quase alheio à importância das outras cores, como um amor que se basta do jeito que é, o filme é poesia. O navio de Jean Vigo é puro final feliz.
domingo, 19 de outubro de 2008
O amor pela comida, o amor e a comida
Aqui, o mote principal é a vida do menino Fanis e sua relação de amizade com seu avô, que o ensinou sobre os segredos da boa mesa. A vida de Fanis muda depois de ser deportado para a Grécia com seus pais, e inicia, durante vários anos, uma jornada de volta à Turquia, que promete algumas dores no caminho. A graça é que voltar a si mesmo – nisso o filme não mente – sempre carrega um pouco de abandono em nome do aprendizado.
E há o amor. Por ele, o filme pára um pouco e mostra, em vez de barulhentos jantares com toda a família de Fanis em volta da mesa, uma dança, um pedido, um prato feito com amor. E uma recordação que se deixa para sempre, inabalável até mesmo pelo tempo e pela distância.
“O tempero da vida” termina por fazer alguns carinhos no espectador, seja com tomadas belas ou com a delicada trilha sonora, que se faz perceptível sem que invada ou atrapalhe as cenas. O elenco é bom e seus personagens parecem algum lugar já conhecido, quase como se fosse fácil demais se afeiçoar por cada um deles. O filme aparece dividido em três partes: os antepastos, o prato principal e as sobremesas, contando, assim, a história em início, meio e fim. E o mais curioso de tudo é que não há propriamente um fim, mas um tempero diferente emprestado à mesma vida.
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Wong Kar Wai e o "Amor à flor da pele"
Tempo passando em cortes abruptos, Wong Kar Wai brincando de fade in e fade out com luz e escuridão: tem tudo isso em “Amor à flor da pele” (2000). O filme é um tratado sobre descoberta e segredo, desejo e resistência, afirmação e negação. Tantos elementos paradoxais juntos não fazem do filme uma confusão, mas uma realidade que existe na história de todo mundo: como seria se não nos negássemos algumas coisas e aceitássemos outras de bom grado?
No enredo, um certo sr. Chow e uma certa sra. Chan se encontram diante do dilema de terem seus cônjuges tendo um caso. Passam a ser parceiros de madrugadas e escrevem juntos – ele queria escrever, mas não tinha coragem. Com ela, ele escreve-, como se cada pessoa fosse um território inexplorado e estivesse esperando apenas por outra para se desfazer em talentos, alegrias e riso. “Os sentimentos podem crescer de repente”, sr. Chow diz.
O tempo passa rápido, em cortes implacáveis: é preciso correr para viver o amor. É preciso ter pressa para viver no intervalo entre o passado e o futuro: no passado, não se pode tocar; do futuro, não se sabe.
E há a árvore dos segredos em “Amor à flor da pele”. Quem tem um segredo, abre um buraco numa árvore, conta e depois cobre com lama. O amor está exatamente no que não é dito, no que parece ridículo ou absurdo demais para ser pronunciado. Por isso, tantos silêncios acompanham o filme: a trilha toca alto para deixar os amantes entregues somente a si mesmos. O amor

