domingo, 15 de março de 2009

“Sim, Senhor” e o poder da comédia despretensiosa

“Sim é o novo não”. Com essa frase, os seguidores de um guru de auto-ajuda pretendem mudar suas próprias vidas. “Sim, Senhor”, que está em cartaz nos cinemas, e que tem como protagonista Jim Carrey, segue a tendência mundial proposta pelos livros de auto-ajuda: a atitude positiva.

Dizer sim indiscriminadamente é o desafio ao qual se propõe o amargurado Carl Allen, depois de recusar todas as oportunidades que surgem em seu caminho. Ele podia simplesmente ter lido “O Segredo” e ter mudado de vida – como fez Oprah Winfrey; podia ter assistido a “Guerra dos Mundos” e ter pensado que o apocalipse estava próximo. Preferiu ir a contragosto à uma reunião e fazer o que todo mundo termina fazendo em meio mundo de lugar por aí: esperar por uma solução simples (pelo menos à primeira vista, obviamente): dizer sim.

O filme não tem nenhum exagero de atuação: nada, nada, nada demais. A graça está na esperança que eu tenho em Jim Carrey (que só me conquistou depois de “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”) e na possibilidade que os filmes mais abobados têm de fazer pensar em alguma coisa. Mesmo que essa coisa seja bastante óbvia como dizer sim ao que a vida traz.

domingo, 18 de janeiro de 2009

"Titãs - a vida até parece uma festa"

O tempo às vezes passa rápido. É esse o espírito de “Titãs – a vida até parece uma festa”, de Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves. Durante anos, câmeras registraram flashes do cotidiano dos Titãs: as viagens, as famílias, a hora de resgatar a mala na esteira do aeroporto, as primeiras versões das músicas, tudo. Entre uma gracinha e outra dos integrantes, coreografias e figurinos cômicos no início da carreira. É como se a gente estivesse olhando um álbum de fotografias de 15, 20 anos atrás – e de fato está.

Mais do que um trabalho de mostrar a trajetória da banda, eu acho, está a importância de construir uma memória de um tempo bom. Nessa hora, importa menos que seja uma banda famosa no país e mais que todo mundo tem uma boa história pra contar. Claro que nem sempre se tem palcos grandes, iluminação e cenário ideais. Mas sempre dá pra viver uma boa história. E se não for boa na hora – o filme também dá essa receita -, pode esperar: depois (olhada assim, em retrospectiva), há de ficar.

A edição do filme fica ainda melhor porque combina as imagens de arquivo – algumas inclusive com o charme de serem tremidas, com cara mesmo de quem está em casa e pega a câmera num impulso – com uma trilha sonora es-pe-ta-cu-lar. Pra quem é fã, certamente vai ficar faltando alguma música (a faixa três daquele álbum ou a cinco daquele), mas a seleção é das boas: tem “Sonífera Ilha”, “Flores”, “Bichos escrotos”, “Epitáfio” e por aí vai. Só pra deixar o gostinho.

Vários rostos conhecidos, como não podiam faltar: tem Jorge Mautner, Paula Toller, Herbert Vianna, Roberto Carlos, Chacrinha, Hebe, Raul Gil e até Jânio Quadros. Dá até pra aprender a cozinhar com os Titãs, embora a receita não seja assim, tão confiável (quem assistiu, sabe do que estou falando). Mas sempre tem quem se aventure.

Pra quem estiver em Salvador, o filme pré-estréia na terça-feira (20), às 20h45, na SALA DE ARTE – CINEMA DA UFBA. O filme faz parte da 1ª Mostra Cine Brasil de Salvador, que acontece até o próximo dia 22. A sessão ainda tem bate-papo com a equipe de produção (Branco e Oscar inclusive).


sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Um beijo roubado (e esperado)

A vida dá voltas, as pessoas dizem. E foi para provar isso que Wong Kar Wai fez o incrível “Um beijo roubado” (2007). Embora haja outros filmes dele com ritmos mais lentos e mais característicos de seu cinema, “My blueberry nights” (título original em inglês) me conquistou até não poder mais.

“Um beijo roubado” é um filme doce, sutil, e que se constrói de esperas (a temática que Kar-Wai nunca deixa escapar). Jeremy (Jude Law) e Elizabeth (Norah Jones) se encontram numa madrugada e vão se conhecendo através de conversas sobre chaves que as pessoas deixam em bares e histórias de despedidas. E uma curiosidade de Elizabeth de experimentar a torta que sempre sobra no balcão, a blueberry pie.

Mas o tempo não pára dentro do filme: viagens, cartas sem endereço de remetente, novas pessoas, novos cenários, tudo acontece. Só que há ainda aquela vontade de jogar o passado distante ao largo para que seja possível olhar para trás de novo e resgatar o que se deixou há pouco tempo. E vivê-lo. Talvez aí esteja a grande sacada do filme (mas é que eu ando suspeita para falar disso ultimamente): fechar todas as portas do passado para terminar de abrir a que se deixou entreaberta.

A trilha é incrível, as cores do filme são espetaculares e há uma graça extra pelo filme se passar em grande parte nas madrugadas. É quando se encontram todos os que andam vagando por aí: marginais, problemáticos, gente sem razão ou que simplesmente precisa se encontrar. É um caminho torto de encontro, mas ainda assim um encontro. Então vale.

Tem ainda Natalie Portman e Rachel Weisz no meio da história toda, mas sinceramente eu não tive olhos para mais ninguém além de Jeremy, Elizabeth e da história toda que se constrói quando menos se espera, e da espera. É lindo.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Monika e o desejo: a liberdade, por Bergman

a Daniel Oliva, que me ensinou a amar Bergman

Ah, os verões! Quem nunca tiver se rendido a um, que atire a primeira pedra. É essa a questão fundamental em “Monika e o desejo” (1953), de Ingmar Bergman: como podemos nos render ao que sabemos passageiro, fugaz, finito? A resposta, ou seja, como, talvez nem esteja no filme, mas é poder se render que está.

Para Godard, “Monika e o desejo” era o “filme mais original do mais original dos cineastas”. De fato, o filme se parece pouco com qualquer coisa que eu tenha assistido antes: poucas vezes vi alguém fazer cinema assim, tão livre. E não se trata de recursos de imagem, mas de história. Difícil mesmo é subverter os roteiros que guardamos na memória, sair do lugar-comum ao qual estamos acostumados. E é justamente isso que Bergman faz com maestria em “Monika e o desejo”.

A história começa como tantas outras: um rapaz e uma moça (a nossa Monika) se apaixonam e juntos, têm vontades de fugir e largar tudo. Largam. Vão viver distantes da sociedade, longe de seus trabalhos e famílias, como se só se pudesse ser feliz de verdade abdicando a tudo. É um tempo feliz, aquele, mas que acaba com o fim do verão. É quando o rapaz acorda e sente que “o dia está diferente” – como ele mesmo considera.

Mas “Monika e o desejo” é um filme sobre liberdade e outras questões que vão levar ao maio de 1968: a juventude chegando, os anseios de gente que até então não existia aos olhos do mundo e passa a existir. E tem desejos. Monika, a protagonista, ama somente os verões, os ventos que circulam livres, e então percebe que ajudou a erigir sua própria prisão. E desmonta tudo. Se o rapaz do filme pudesse ter-lhe dedicado um poema, seria o Epigrama nº 8, de Cecília Meireles:

“Encostei-me a ti, sabendo bem que
Eras somente onda.
Sabendo que eras nuvem, depus a
Minha vida em ti.

Como sabia bem tudo isso, e dei-me
Ao teu destino frágil,
Fiquei sem poder chorar quando caí”.



O mais embrutecido dos expectadores há de ficar atônito com “Monika e o desejo”. Pronto, não digo mais nada.

domingo, 30 de novembro de 2008

“Juno” e a fórmula de sucesso do filme alternativo

Um punhado de músicas indie. Protagonistas problemáticos, rodeados de outros personagens cheios de manias e neuroses. Figurinos excêntricos. É juntar tudo isso que a gente chega fácil na fórmula que garante sucesso a filmes como “Juno” (2007) e “Pequena Miss Sunshine” (2006). Não é que sejam ruins nem bons por isso, mas seguem uma tendência que, se Woody Allen pudesse ter adivinhado que ia acontecer, teria deixado muitos bons filmes de sua carreira só na idéia.

Para mim também é encantador ver um filme com Velvet Underground, Buddy Holly, Cat Power e Belle and Sebastian na trilha sonora, como acontece em “Juno”, mas isso não resolve o resto todo. Na trilha, tem também aquelas canções em que a banda vai numa direção e as vozes vão em outra – o que garante algum prestígio junto a uma determinada classe de ouvintes.

O que fico pensando é se as pessoas crêem mesmo que “Juno”, de Jason Reitman, é um filme despretensioso só porque não acontece nada nele. Aí tem também festejar tanto a roteirista Diablo Cody, que ganhou o Oscar por ser ex-stripper e ex-operadora de telesexo (que era só o que se comentava sobre ela na época da entrega do prêmio). Mas a Juno, interpretada por Ellen Page, é mesmo bonitinha.

A história? Juno engravida de seu melhor amigo e decide entregar seu filho à adoção. A facilidade da explicação me faz lembrar de um professor que diz que é para ter medo quando a gente consegue falar sobre o que o filme trata assim, tão rápido. Não é que o filme seja ruim, admito: é só que coloca a fórmula do filme alternativo em prática sem encantar, fica faltando aquele ar de maravilha quando termina. Já “Pequena Miss Sunshine”, eu acho, não deixa faltar nada: é cheio de delicadezas e se realiza bem dentro do que propõe.

“Juno” se impõe mesmo pela trilha sonora, mas o tão-festejado roteiro deixa a desejar, já que no filme não acontece nada além do previsto: é uma linha reta. E vamos combinar: a graça do cinema (e da vida) é a surpresa.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

A Bela, a Fera e o cinema do possível

Não é à toa que os filmes mais bonitos entram fácil na categoria fantasia. Aliás, são os que escapam da prateleira “Romance” – não coincidentemente, claro – os que oferecem as melhores doses de amor feliz. Não deve ser somente pelos personagens que não são humanos – assim eu, desconfiada, penso. Deve ser porque o amor bom demais tem mesmo que ir pra a classificação de “Fantasia”. Aí é que entra “A Bela e a Fera” (1946), de Jean Cocteau.

Mesmo para os fãs do colorido e das músicas de “A Bela e a Fera”, da Disney, não fica faltando cor nem história nem nada no de Cocteau. Em preto-e-branco, eu diria, a história tão conhecida fica cheia de contornos poéticos, com uma fera interpretada por Jean Marais, já íntimo de quem gosta do cinema que é bom demais para ser verdade por “Pele de Asno” (1970), de Jacques Demy.

A delicadeza que a atriz Josette Day imprime à Bela é ótima, mas Jean Marais está espetacular. Consegue fazer com que a gente – exatamente como a Bela – vá mudando de sentimento em relação à Fera. O que parece tão assustador é, na verdade, um bicho ferido com ânsias de se defender. Mas então a história segue (nenhuma pára) só para provar que a Bela de carne e osso de Cocteau acreditava naquela frase dele mesmo: “Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez”. De repente, a história não precisava ser desenho animado para existir: podia ser com gente parecendo gente também. E como Cocteau é convincente!

Os figurinos são maravilhosos (assim mesmo) e os efeitos especiais são bonitos, ainda que não cheios de recursos como é possível hoje em dia. Talvez a graça esteja exatamente aí: Cocteau mostra que é possível aproximar o conto de fadas da vida real. Só vendo para crer.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Romance: o meu, o seu e o de Guel Arraes

O cinema nacional tem salvação, eu vi. Depois de “Todas as mulheres do mundo”, de Domingos de Oliveira, ficou faltando para mim mais um nacional arrebatador, que carregasse consigo a mesma doçura. Encontrei em “Romance”, de Guel Arraes. É claro que foi preciso muita delicadeza para tratar da história de Tristão e Isolda, de Bédier, mas isso, Guel faz com sutilezas de olhares desviados, gestos mínimos. E lindamente.

Gosto da mistura entre teatro e cinema. Gosto do figurino. Gosto da metalinguagem que me lembrou um filme que amo: “A mulher do tenente francês” (1981), de Karel Reisz. Em “Romance”, tem cinema dentro do filme. Ainda mais: tem também algumas peças de teatro e uma história de amor como poucas: a de Tristão e Isolda, a que deu origem ao amor romântico (aqui vale ler “We”, de Robert Johnson, que fala da visão da psicologia da história deles).

“Romance” foge daquela reclamação usual no cinema nacional de que parece novela. Não parece. Parece um filme, mas ainda melhor: fiquei desejando mais quando chegou ao final. Bons cortes de imagem e a fotografia é bem bonita. Os atores estão bem. E o filme tem aquela leveza difícil de se conseguir, principalmente quando se propõe a falar de uma história tão conhecida, daquelas que mesmo quem nunca ouviu falar em Tristão e Isolda conhece, por conhecer o amor. Mas não é cheia de clichês. É ousada, e a graça está exatamente aí.

Depois li no blog do filme que Guel orientou Wagner Moura (o Tristão) a ter algumas referências. No meio delas, tem “Jules et Jim” (um dos meus favoritos do mundo inteiro) e, curiosa mas não absurdamente, “Todas as mulheres do mundo”. Ficou lindo. E tem no elenco Letícia Sabatella, Vladimir Brichta, Marco Nanini, Andréa Beltrão, Zé Wilker...eu adorei.

E é de matar quando Caetano começa a cantar “Nosso estranho amor”. Cinema é reconhecimento, não é? Então tá. Não costumo falar de filme assim, tão recente que ainda esteja no cinema, mas esse mereceu. Vão lá correndo descobrir por que.